AULA 2
• DAS FONTES INDO-EUROPÉIAS À ERA ROMÂNTICA
(Da Narrativa Primordial à Literatura Infantil Clássica)
- a literatura ocidental constitui uma unidade reconhecida que compreende a literatura de toda Europa, Rússsia, Estados Unidos da América e da América do Sul; (R. Wellek & Warren, Teoria da Literatura, p. 62);
- as origens da Literatura Infantil, hoje conhecida como "clássica” (Novelística Popular Medieval) têm suas raízes mais remotas em certas fontes orientais (Índia) ou, mais precisamente, indo-européias (Nelly Novaes Coellho);
- os livros consagrados como clássicos infantis, os contos-de-fada ou contos maravilhosos são narrativas anônimas, portanto Perrault, Grimm ou Andersen, ou as fábulas de La Fontaine não são os verdadeiros autores;
- são dos escritores que, desde o século XVII, interessados na literatura folclórica criada pelo povo de seus respectivos países, reuniram as estórias anônimas, que há séculos vinham sendo transmitidas, oralmente, de geração para geração, e as transcreveram por escrito;
- registradas em livro, tais coletâneas receberam os nomes de seus recriadores e continuaram a se difundir através do tempo e do espaço;
- a partir do confronto das invariantes/ variantes narrativas (conservadas pela memória privilegiada de alguns contadores-de-estórias) e, essencialmente, a partir dos documentos encontrados em diferentes regiões: inscrições em pedras, em tabulinhas de argila ou de vegetal; escrituras em papiro ou pergaminho, em rolos ou em folhas presas por um dos lados ou ainda em grossos livros manuscritos (cuja preciosidade era defendida com grossas correntes e cadeados...), estudiosos levantaram hipóteses;
- Literatura Primordial: aquela que, embora não transcrita em material perene, atravessou séculos, preservada pela memória dos povos (narrativas de caráter mágico ou fantasioso);
- o impulso de contar estarias deve ter nascido no homeim no momento em que ele sentiu necessidade de comunicar aos outros certa experiência sua, que poderia ter significação para todos;
- a gênese da Literatura Popular/Infantil ocidental está nas longínquas narrativas primordiais, cujas origens remontam a fontes orientais bastante heterogêneas e cuja difusão, no ocidente europeu, se deu durante a Idade Média, através da transmissão oral;
- das narrativas primordiais orientais nascem as narrativas medievais arcaicas, que acabam se popularizando (na Europa e depois em suas colônias americanas, como o Brasil) e se transformando em literatura folclórica (ainda hoje viva, circulando principalmente no Nordeste, através da literatura de cordel) ou em literatura infantil (através dos registros feitos por escritores cultos, como Penault, Grimm, ctc.)
NARRATIVAS PRIMORDIAIS ORIENTAIS ---->
---->NARRATIVAS MEDIEVAIS ARCÁICAS--->
----->LITERATURA FOLCLÓRICA --->LITERATURA DE CORDEL (E) LITERATURA INFANTIL
Observação: O desenho com a árvore real o blog não está aceitando publicar, logo para melhorar o entendimento, resume-se que as narrativas primordiais orientais originaram as narrativas arcáicas, as quais deram origem a literatura folclórica que se bifurcou em literatura de cordel ou literatura infantil.
- versões folclóricas de certas narrativas apresentam inúmeras variantes (dependendo das regiões onde se arraigaram); enquanto as versões infantis reproduzem-se praticamente inalteradas, nas várias edições que se sucedem (mobilidade da vida, resultante da transmissão oral, contraposta à fixidez do texto literário, determinada pela escrita);
FONTES ORIENTAIS:
• Pantcha-tantra (cinco livros) (conjunto de textos sagrados mais importante da Antiguidade, do qual só restam fragmentos, e que reunia textos usados pelos pregadores budistas, por volta dos sécs. V e VI a.C.) e ao Mahabarata (longa epopéia primitiva indiana, surgida por volta do séc. VIII a.C.)
• Calila e Dimna - coletânea mais antiga das narrativas que estão nas origens da Literatura Popular européia; deve ter surgido na Índia, por volta do século V antes de Cristo, e dali saído pela primeira vez, no século VI d.C., através de uma tradução persa
• Sendebar - originária da Índia, essa coletânea do fabulário oriental rivalizou com Calila e Dimna, como fonte da narrativa popular ocidental; penetrou na Península Ibérica ao mesmo tempo que Calila e Dimna, através da versão castelhana, feita diretamente do árabe, por ordem do Infante Don Fradique (irmão de Afonso X, o Sábio); devido à perda das versões anteriores em sânscrito, persa e mesmo da árabe, que lhe serviu de fonte, a versão castelhana tornou-se a forma mais pura e antiga da célebre coletânea; foi fonte da divulgação da imagem negativa da mulher, vista como astuta, mentirosa, traidora, ambiciosa, que mais tarde, na novelística ocidental, vai alternar com a imagem positiva da mulher-anjo, de inspiração cristã, dando origem à imagem dual que define a mulher, até hoje, dentro da concepção cristã ocidental;- Sendebar (ou Livro dos enganos das mulheres) apresenta a estrutura-em-cadeia característica de Calila e Dimna e que vai ser extremamente popular no Ocidente;
• Barlaam y Josafat - novela mística, cuja forma ocidental e cristã, em versão grega, foi atribuída inicialmente a S. Juan Damasceno, grande Padre da Igreja Oriental, no século VIII;- descobriu-se depois que fora escrita por um outro Juan que, um século antes, fora monge no convento de San Sabas, perto de Jerusalém; foi bastante divulgada através da tradução latina, hoje, reconhecida como uma versão cristã da lenda de Buda; a influência de Barlaam e Josafat aparece claramente em: El Conde Lucanor de D. Juan Manuel; Libro de Bestias de Raimundo Lúlio; Barlaam y Josafá de Lope de Vega e La Vida es Suenõ de Calderon de Ia Barca;
• As Mil e Uma Noites - a mais célebre compilação de contos orientais que circula no mundo ocidental; a forma atual deve ter-se completado em fins do século XV ou princípios do século XVI;- começou a se divulgar no mundo europeu, no início do século XVIII, quando Galland traduz para o francês uma primeira coletânea {1704); Galland "expurgou-a" de algumas narrativas menos "exemplares" (ou mais licenciosas) e incluiu outras, de origem turca ou persa; concluiu-se que existe nesse famoso livro não só legítima matéria árabe ou síria, como, também, elementos estranhos aos costumes muçulmanos, como rastros de contos fantásticos indianos, bem como de gentilismo, magia e demonologia persa;- sua origem é heterogénea e exótica;- não foi conhecida no mundo europeu, até princípios do século XVIII e obviamente não exerceu nenhuma influência direta na novelística ocidental arcáica;- estrutura em cadeia idêntica a de Calila e Dima e Sendebar;- se difundira por todo o mundo ocidental, através das várias literaturas populares, e diversos de seus episódios passaram a ser divulgados como Literatura Infantil;
• Hitopadesa ou Instrução proveitosa- coletânea de caráter "exemplar" ou moralizador, derivada das narrativas da Pantschatantra; na Índia, essa coletânea ficou célebre como compêndio de leitura edificante;- originalmente escrita em sânscrito teve inúmeras traduções em línguas modernas;
O FIO DA NARRATIVA NO TEAR DA HISTÓRIA
Leitura de textos (Xerox) / análise/comentários
Pantcha-tantra
Conta-se que o ministro Sumati, diante do rei Amaracakti,[1]considerado a arvore kalpat[2], de todos os necessitados e profundo conhecedor de todas as artes, que manifestava profunda preocupação em despertar a inteligência de seus três filhos, deveras ignorantes e desinteressados pela ciência, propôs a entrega dos príncipes a um brâmane Visnucarman, proficiente em todas as ciências, Ao ser convocado pelo rei, Visnucarman faz a promessa de tornar os jovens versados no prazo de seis meses. Então compôs cinco livros – A desunião de Amigos, A aquisição de amigos, A história dos corvos e das corujas, A Pedra do Bem Conquistado e a Ação Impensada para que os príncipes fossem instruídos. E assim em seis meses, eles alcançam o que fora previsto. Desde então, esses cinco livros, denominados Pantcha-tantra e considerados um tratado de moral, circulam pelo mundo com a proposição de educar os jovens.
Pertencem a essa ambientação do Pantcha-tantra, as narrativas: O eremita, a jarra de manteiga e mel e a Tartaruga Kambugriva[3].
Os outros textos mais contemporâneos nos permitirão depreender o diálogo que estabelecem as diferentes versões da tradição indiana ao longo do tempo, no tecido desse universo literário a que chamamos Literatura Infantil e Juvenil.
• FÁBULA
Do sentido primeiro do substantivo - conversa, invenção - decorrem outros como historieta, narrativa breve, fictícia e mentirosa, Assim, tende a confundir-se com a parábola, com o mito, com a lenda, apólogo, conto de fadas. No entanto, é importante lembrar que cada qual guarda sua especificidade. A fábula, por exemplo, como as que apresentamos, constitui um texto narrativo com duas partes ou dois discursos bem distintos e evidentes: a estória da irrealidade (discurso figurativo) das personagens fictícias (geralmente animais) e a moral da estória (discurso temático da realidade).
Para estabelecer o elo entre esses dois discursos colocam-se marcadores lingüísticos tais como: moral:...”a fabula mostra”.......”por isso eu digo”... Tais elementos assinalam a presença de outras vozes, outros pontos de vista que determinam o tratamento dado ao conteúdo, com a finalidade de confrontá-lo com o de outros textos, com outras maneiras de ver o mundo. Portanto, constituem formas de percepção de problemas que enfrentamos em situações diversas, contribuem para a compreensão de contradições tão comuns em relacionamentos e fornecem pistas para solução de crises.
[1] Amaraçati – que tem poder imortal
[2] arvore kalpat- uma das árvores do paraíso de Indra
[3] a versão para o português encontra-se no livro.Pnchatantra de Maria Valiria Vargas.




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