AULAS
LITERATURA INFANTIL E JUVENIL LINGUAGEM DO IMAGINÁRIO I
Profa. Dra Maria Zilda da Cunha
I - Introdução
A literatura infantil e juvenil, apesar de ter sido entendida como um gênero menor, por muitos e durante algum tempo, é hoje respeitada como uma chave críptica para diversas sondagens, posto que, pelo avesso desse tecido literário pode-se perceber a trama de formações sociais, ideológicas, de diferentes culturas humanas, crenças, conceitos, idéias, concepções de mundo; inclusive permite estabelecer relações absolutamente interessantes e fundamentais sobre as representações que se fazem e fizeram da criança, e do próprio humano, no perfazer da história. Daí o desenvolvimento de estudos interdisciplinares sobre o assunto (de abordagem sociológica, psicanalítica, antropológica, pedagógica, entre outras). No bojo de transformações profundas, a literatura infantil e juvenil hoje se impõe como importante objeto de estudo; no âmbito dos estudos universitários, ela vem ocupando espaços cada vez maiores e configura-se como linguagem especial destinada aos jovens e passa a ser percebida como fator básico da própria dinâmica do conhecimento.
Este nosso curso possui uma abordagem mais histórica; é uma atividade de escavação na busca de origens – não uma matriz – o ponto originário e o final são imaginários e inatingíveis. Nessa linha de raciocínio, o movimento histórico é essencial (semiose – como um signo dá vida a outro) assim como é o reconhecimento do momento histórico, de cada contexto cultural, social e histórico.
É necessário conferir referências, em especial a respeito de conceito de arte, de linguagem, de literatura como formas específicas de produção humana (tal como preconizam algumas teorias atuais) - importante para que possamos olhar para outras épocas e possamos perceber as diferenças e também a tessitura de fios de sentidos humanos que nos constituem e que são possíveis de serem vislumbrados pelas vias da ficção.
· ARTE E LITERATURA
Arte – atividade humana muito sofisticada – que envolve sensibilidade, construção, elaboração, raciocínio e lógica - a ponto de ser a primeira a descobrir e revelar que a linguagem é mentirosa – fruto do embate do homem com o real.
Literatura – “em português é o conjunto de produções feitas com base na criação de um estilo que é finalidade de si mesmo e não instrumento de demonstração ou exposição. Mais restritamente, é o conjunto das produções feitas com base na criação de obras que manifestam o intuito de criar um objeto expressivo, fictício na maior parte... Toda a literatura (romance, teatro em prosa) saiu da nebulosa criadora da poesia.” (Antonio Cândido, 1996).
· ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O INFANTIL DA LITERATURA / E SOBRE A FORMAÇÃO DA LITERATURA INFANTIL
“A maneira de perceber a criança influi sobre suas condições de vida, sobre seu estatuto e sobre os comportamentos dos adultos em relação a ela. Em uma dada sociedade, as idéias e as imagens relativas à criança, por mais variadas que sejam, organizam-se em representações coletivas, que formam um sistema em níveis múltiplos. Uma linguagem “sobre” a criança é criada, assim como uma linguagem “para” a criança, já que imagens ideais e modelos lhe são propostos.” M.J.C. de Lauwe
Puxando o fio da história
Natureza humana, humanidade, homem racional, eram palavras presentes nos discursos dos mais antigos filósofos, que se constituíram em grandes pilares da formação do pensamento ocidental. Essas palavras, no entanto, não se referiam à metade do gênero humano, vinculavam-se aos homens adultos, ou seja, não abarcavam mulheres e crianças (Saporiti,1985).
A palavra criança é extremamente usada nos mais antigos documentos. No entanto, vamos, através das pesquisas de Ariés (1981), perceber que até aproximadamente o século XVIII, ela não possui o mesmo significado que a ela atribuímos.
A criança inscrita na sociedade é bastante recente, e segundo o autor acima citado, isto ocorre nos primórdios da Idade Moderna.
Em a História Social da Criança e da Família, Ariés (1981) explica que, apesar de as “paideias antigas” deixarem vestígios sobre rituais de passagem de em algumas fases de vida, a noção das idades era extremamente diferente das que podemos imaginar. Tomando como referência a sociedade medieval, esse autor nos mostra, através de uma profícua investigação, que a idéia da particularidade infantil, que distingue a criança do adulto, não existia. A indeterminação a respeito desse período de vida abarcava desde o termo designativo - enfant, até a participação indiscriminada em toda e qualquer prática social. Ao referir-se à gestação de um “sentimento novo” a respeito da criança, diz que a arte, a iconografia e a religião, desde o séc. IV, já procuravam exprimir a “personalidade que se admitia existir nas crianças e o sentido poético e familiar que se atribuía à sua particularidade”. Em sua evolução, essa expressão passa a se configurar como um sentimento de infância que se desenvolve no meio familiar com relação às crianças de tenra idade; que “por sua ingenuidade, gentileza e graça se tornam uma “fonte de distração e relaxamento para o adulto, um sentimento que poderíamos chamar de paparicação”. Esse sentimento, ainda segundo o autor, provoca severas críticas no final do século XVI e sobretudo no séc. XVII: não é admissível a idéia de se amar as crianças “como passatempo, como se fossem macacos”, dizia Montaigne.
Foi entre os escolásticos, moralistas e educadores do séc. XVII que se inicia um “autêntico” sentimento de infância. Esses se recusavam a considerar as crianças como “brinquedos encantadores”, viam-nas como “frágeis criaturas de Deus” que era preciso, ao mesmo tempo, preservar e disciplinar. A preocupação era fazer das crianças pessoas honradas e probas e homens racionais (Ariés, 1981).
Esse “autêntico sentimento de infância”, ou essa noção de criança, como se pode inferir, está baseada nas seguintes proposições:
a) das criaturas de Deus, o homem (em seu estágio adulto) é o mais perfeito;
b) as crianças são frágeis criaturas de Deus, ainda imperfeitas;
c) as crianças devem ser preparadas (controladas) pelo adulto para se tornarem homens racionais.
Essa espécie de conhecimento sobre a criança, que surgiu entre os escolásticos, vai ligar-se a um outro acontecimento importante do séc. XVIII - a emergência de uma nova noção de família, centrada não mais num núcleo unicelular.
A família começou a se organizar em torno da criança e passou a lhe dar uma importância tal que a criança saiu de seu anonimato. Saindo do seu anonimato, a infância ou indivíduo que a atravessa passa a ser objeto de preocupação de teóricos desse século e dos séculos seguintes, que desenvolveram suas doutrinas baseadas no pressuposto que subjaz à noção de criança: um ser imperfeito, perante o padrão adulto - homem racional.
Não pretendemos, aqui, discorrer sobre as várias questões que isto envolve, portanto, a guisa de exemplo, faremos apenas referência a dois teóricos: ao empirista britânico John Locke (1632 - 1704) que, com sua metáfora da tábula rasa, influenciou grande parte do desenvolvimento de ciências que posteriormente surgiram, entre essas, a pedagogia e a psicologia infantil e ao pensador francês Jean Jaques Rousseau (1712-1778) que “é o responsável por trazer idéias muito antigas para a modernidade, disfarçando-as em roupagens novas” (Saporiti, 1985).
Esse pensador, usando o argumento da lei natural, continua uma longa tradição de pensamento e acaba por desenvolver uma teoria que vai confirmar a inferioridade da criança. No Émile (1977), Rousseau defendeu a tese de que a tarefa do adulto - pais e educadores - é criar condições pelas quais o curso do desenvolvimento ordenado pela natureza possa desenrolar-se espontaneamente, livre de intervenção dos adultos. O que Rousseau acreditava é que, entregue à natureza, a criança teria o desenvolvimento processando-se numa sucessão de fases. Em cada fase de desenvolvimento, o indivíduo está completo e integrado. Desse modo, a evolução da criança se daria por etapas isoladas e na direção de atingir o padrão adulto. Por outro lado, conforme aponta Saporiti (1985), “o elemento que transformou Rousseau no filósofo da era moderna foi justamente a maneira como ele expressou sua rejeição da exploração, da desigualdade entre os homens”. Aqui, continua a autora, citando Okim, ele faz um uso oblíquo e ambíguo da linguagem. Quando se observa melhor, pode-se perceber que a desigualdade a que Rousseau estaria se referindo e lutando contra, era tão somente aquela que pode existir entre os membros masculinos de uma comunidade e não diz respeito à espécie humana como um todo. De tudo isso é possível depreender a visão da criança, como um animalzinho silvestre, alguém muito próximo à natureza que não precisa e nem deve sofrer os impactos dos acontecimentos.
Rousseau, com suas idéias, também se tornando um interlocutor privilegiado no desenvolvimento da psicologia infantil e da pedagogia, embora com menos força no campo do ensino, iluminou a visão romântica da criança.
Na verdade, são esses dois pilares, aparentemente antagônicos, porém confluentes em sua pressuposição matriz sobre a criança, que alicerçam a idéia que temos sobre sua inferioridade em relação ao adulto.
Voltando a Ariés (1981), ele nos conta que à medida que a criança deixou de ser misturada ao adulto, a escola substituiu a aprendizagem como meio de educação. Diz ele:
“a criança foi separada dos adultos e mantida à distância numa espécie de quarentena, antes, de ser solta no mundo. Essa quarentena foi a escola, o colégio, começou então um longo processo de enclausuramento das crianças (como dos loucos, dos pobres e das prostitutas) que se estenderia até nossos dias e ao qual se dá o nome de escolarização.”
Essa separação - e essa chamada à razão - das crianças deve ser interpretada como uma das faces do grande movimento de moralização dos homens, promovido pelos reformadores católicos e protestantes ligados à Igreja, às leis do Estado (Ariés, 1981). Essa chamada à razão culmina com a visão cartesiana, que se incorporou às tradições iluministas, segundo a qual “a primeira maneira de evitar o erro seria tornar a infância um estado de patologia; entendendo patologia como as ‘manchas’ que se expandem antes do uso da razão e que, portanto, devem ser eliminadas pelos mestres, pelos livros e pelos costumes” (Matos, 1990).
E assim teríamos parte de um arcabouço constituído para dar conta da representação da criança e conseqüentemente das práticas destinadas a ela (incluindo a produção/adaptação de textos para a infância)[i]
Contexto do Sec. XVIII
• A criança – inscrita na sociedade; peça fundamental para a formação da família burguesa/ - postulados o seu confinamento, fragilidade e inferioridade perante o adulto.
• Escola – papel fundamental, literatura formadora – do caráter ético e moral, literatura = conjunto de textos apropriados para essa formação.
• Revolução industrial – desenvolvimento da imprensa – livro a primeira mídia.
• Pode-se dizer que os primeiros livros para crianças datam dessa época/ um conjunto de textos convergem para a formação do cânone da literatura infantil como gênero específico
• NUMA SÍNTESE GROSSEIRA
• Idade Média – a criança - adulto em miniatura / participa de eventos misturada aos adultos.
• Idade Moderna – a criança ganha status, inscreve-se na sociedade /são postulados o seu confinamento, fragilidade e inferioridade perante o adulto/Inicia-se a escolarização espécie de quarentena – separada dos adultos, (eventos, conversas, saberes, os assuntos selecionados) Aries . Desenvolvimento de pesquisas, teorias áreas, produtos culturais e industrializados
• A criança no mundo contemporâneo. (para pensar)
· ALGUMAS CONSTATAÇÕES
• Há um jogo de representações de que a sociedade se utiliza para se auto – regulamentar - como sistema simbólico, se organiza de acordo com as formações sociais e historicamente, vai se consolidando e funcionando como um sistema controlador, (os diferentes sistemas sígnicos agem de forma cooperativa).
• Pode-se detectar as relações existentes entre as diretrizes educacionais de cada época e a natureza da literatura, destinada às crianças e aos jovens.
• As obras estudadas em seu valor como objeto de entretenimento (prazer ou emoção) para o leitor; em seu alcance pedagógico como possível elemento formador de uma consciência-de-mundo; como consolidação de valores já conquistados pela sociedade, ou ainda como obstáculo à evolução, pelo reforço a formas ou idéias já superadas;
• Deve-se lembrar sob o ponto de vista filosófico e psicocognitivo:
• As idéias de Morin – sintese de mihões de anos, Walter Benjamim – Reflexões sobre a criança, o brinquedo e o livro - para quem a criança compreende o acordo secreto entre as coisas, recolhe o lixo da história, dá novas ordenações, a criança para esse filósofo, “exige clareza mas não infantilidades”. Cumpre lembrar os estudos vinculados às ciências cognitivas, que demonstram como a criança pensa e apreende o mundo.