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quarta-feira, 30 de março de 2011


LAÇO GENÉTICO

Mito  
Lenda
 é também uma narrativa de cunho popular. Suas personagens,  diferentes do mito, são seres humanos. Liga-se ao contexto histórico, ao espaço geográfico, ao povo para explicar fenômenos desconhecidos. Enquanto no mito há um símbolo, na lenda há um objeto concreto. Retomando a etimologia da palavra lenda, encontramos legenda – para Jolles outra forma simples da literatura. A natureza da legenda se confunde com a vida dos santos. Para a formação da lenda, geralmente, há um relato – um testemunho.
O mito e a lenda se diferenciam pela dimensão humana ou não das personagens centrais e seus feitos.
 
Conto
 Conto    para Propp, constitui uma estrutura comum com característica composicionais marcantes. Situação inicial – apresentação das personagens, tempo e espaço;  o motivo – o que provoca o conflito, unidade mínima de sentido que se repete ; as motivações – situações breves derivadas de um motivo e que se modificam nas diferentes recontagens; o tempo e o final com resolução dos conflitos.
 
 
Fábula Fábula  vem de fabla = falar = é uma pequena narração com objetivo de instruir e divertir. (Góes, 191:144). As personagens são animais, são narrativas simbólicas.
 
A fábula, por exemplo, como as que apresentamos:
 
 
constitui um texto narrativo com duas partes ou dois discursos bem distintos e evidentes: a estória da irrealidade (discurso figurativo) das personagens fictícias (geralmente animais) e a moral da estória (discurso temático da realidade).  
Para estabelecer o elo entre esses dois discursos colocam-se marcadores lingüísticos tais como: moral:...”a fabula mostra”.......”por isso eu digo”... Tais elementos assinalam a presença de outras vozes, outros pontos de vista que determinam o tratamento dado ao conteúdo, com a finalidade de confrontá-lo com o de outros textos, com outras maneiras de ver o mundo.
Portanto, constituem formas de percepção de problemas que enfrentamos em situações diversas, contribuem para a compreensão de contradições tão comuns em relacionamentos e fornecem pistas para solução de crises.
   
O homem, independente do tempo e lugar, carrega dentro de si indagações semelhantes.  Muitas rondavam o homem primitivo que se via diante do universo e o interrogava.  As respostas serão construídas como narrativas. Essas formas de narrativas foram denominadas mitos.  Jolles comenta o mito como “ a grande resposta”. Para Marilena Chauí, o mito é uma forma de o homem narrar a si mesmo.
O mito é rito. Literariamente, o mito abarca as cosmogonias da criação do universo, do mundo, dos homens. Mito do grego mythos – um relato, uma narrativa cujo tema trata das relações dos homens com deuses. 
 
A literatura infantil germina com as formas arcaicas e populares que foram designadas mitos, lendas, contos, fábulas. 

segunda-feira, 28 de março de 2011




Tartaruga Kambugriva[1].
Em certo lago, vivia uma tartaruga chamada Kambugriva,que tinha dois amigos da família dos cisnes, chamados Samkata e  Vikata,unidos por imensa amizade. Os dois cisnes encontravam-se com ela nas margens do lago, para contar histórias de vários devarsi  e maharsi,e retornavam ao seu ninho na hora do sol poente. Com o passar do tempo, o lago foi secando pouco a pouco devido à falta de chuva. Aflitos com a calamidade, eles disseram:
    - Ó amiga, este lago tornou-se pura lama. Como você poderá viver? A ansiedade tomou conta de nossos corações.
            Ouvindo isso, Kambugriva disse:
            Deveras! Pela falta d´água, agora já não temos possibilidade de viver. Por isso devemos pensar num expediente, pois se diz:
A perseverança não deve ser abandonada mesmo em época adversa; pela perseverança, às vezes, encontra-se refúgio, assim como um mercador, mesmo numa embarcação danificada e no meio do oceano, ainda deseja atravessá-lo. 
            Além disso:
Manu disse estas palavras: Pelo bem do amigo e pelo bem da família, o sábio sempre persevera com energia, quando as calamidades acontecem.
            - Tragam, então, uma corda forte ou um bastão leve e procurem uma lagoa com bastante água. Eu agarrarei, com os dentes, no meio do bastão e vocês, nas pontas. Depois de agarrarmos todos juntos, vocês me levarão até a lagoa.
            Eles disseram:
            - Amiga, assim faremos, porém você deve permanecer em voto de silêncio, senão cairá do bastão.
            Assim feito, quando viajava, Kambugriva avistou uma cidade situada lá em baixo. Os habitantes, vendo-a ser conduzida daquela forma, assombrados, disseram:
            - Nossa! Algum objeto arredondado é levado pelos dois pássaros!
Ouvindo o barulho deles, Kambugriva disse:
- Ei! O que é esta zoeira?
Assim tinha em mente falar, mas caiu na metade da frase e foi feita em pedacinhos pelos habitantes da cidade. Por isso, eu digo:
Quem não faz caso da palavra dos amigos............(çloka 318)
- E também se conta:
Anãgatavidhã e Pratyupannamati, estes dois prosperaram em felicidade; Yadhavixya morreu.
O tittiba perguntou:
- Como foi isso?
A fêmea contou:
A Fábula XIV Os três peixes.  



Kambugriva – que tem pregas no pescoço, semelhantes a conchas.
Samkata pequeno ; Vakaia - grande
devarsi  e maharsi são duas entre várias classes de poetas inspirados,
çloka- estrofes de 2 versos com 16 sílabas cada, que se interpolam no texto.
Anãgatavidhã – que dispõe o futuro;  Pratyupannamati,- que tem presença de espírito; Yadhavixya – que espera acontecer.



[1] a versão para o português encontra-se no livro.Pnchatantra de Maria Valiria Vargas.
CRONOGRAMA
(03/03) Apresentação do programa e do tratamento metodológico
(10/17/24/03 e 31/03) Aulas sobre fundamentação teórica para estudo/pesquisa da literatura Infantil/Juvenil.
(7/04) “As Fontes Inaugurais”: Leitura analítica de Calila e Dimna.Comparação dessa obra com Esopo e La Fontaine, verificando os valores ideológicos da época de difusão.
(14/04) “A transfiguração Literária dos Valores ideológicos românticos nos contos de Grimm e Andersen”.
(28/04) Chapeuzinho Vermelho à luz da Psicanálise (Bettelheim, Jung, Freud, Von Franz, Corso). Confronto com adaptações contemporâneas, p.ex., Ângelo Machado, Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Guará; Dionísio da Silva, A melhor Amiga do Lobo; João de Barro, Chapeuzinho Vermelho;Aurélio de Oliveira, O gatinho Nicolau, Chapeuzinho Vermelho e o Lobo, entre outros.
(05/05) “A imagem tradicional da mulher na obra da Condessa de Ségür”.
(12/05) “O racionalismo versus o non-sense em Lewis Carroll”, Aventuras de Alice nos país das Maravilhas.
(19/05) “A valorização do Homem natural ‘ no sentido rousseauniano do termo em Aventuras de Robinson Crosoé de Daniel Defoe”.
(26/05) “A sátira à civilização racionalista utilitarista/industrial do século XVIII em viagens de Gulliver, J.Swift”.
(02/06) “Conquistas científicas e imaginação criadora de J. Verne em finais do séc. XIX”.
(09/06) Prova
(16/06) Encerramento: Devolução de trabalhos e entrega de notas.


quinta-feira, 24 de março de 2011


Seminário
  Escolha do tema. Delimitação do assunto
  Pesquisa bibliográfica ampla. Anotações do material coletado
  Análise e seleção do material. Plano geral do trabalho
  Organização do assunto em tópicos
  Elaboração de um roteiro para ser distribuído em classe (opcional)
  Redação de fichas-guia para orientar a discussão
  Preparação do material ilustrativo (cartazes, slides, transparências...)
  Revisão crítica do conteúdo. Fixação dos critérios  e  ensaio para apresentação: definição do vocabulário, uso das ilustrações, tempo para exposição e espaço para o debate (OLIVEIRA, 2003, p.104).

Paper
  “Texto escrito subsidiário de uma comunicação oral […] e tem por objetivo a publicação em anais. (ANDRADE,1995, p. 68)
  Síntese de suas descobertas sobre um tema e seu julgamento, avaliação, interpretação sobre essas descobertas;[…]deve apresentar originalidade quanto às idéias;[…] deve reconhecer as fontes que foram utilizadas;[…]um trabalho que mostra que o pesquisador é parte da comunidade acadêmica.”(ROTH, 1994, p. 3)
  O paper visa a criticar ou complementar uma idéia ou uma obra. Baseia-se em pesquisa bibliográfica e em descobertas e opiniões pessoais.
  É o desenvolvimento de um ponto de vista, uma tomada de posição e/ou expressão dos pensamentos de forma original.



Paper 
  Título: caixa alta,arial 14, negrito, centralizado
  -Nº de páginas: 05
  -Nome do aluno: Arial 12 centralizado
  -Texto: arial 12,espaçamento 1,5, justificado
  -Margem: 3cm- margem superior e esquerda e 2cm margem direita e inferior
  -Entregar uma cópia impressa e enviar uma para o email (endereço disponibilizado).
  -Redigir em forma de texto, que deve conter: objetivos, problema,justificativa,metodologia,referencial teórico. Ao final, após 2 espaços, registrar as palavras – chave.
  TÍTULO
  2 espaços 
  SOBRENOME, nome – centralizado
  TEXTO
  APÓS O TÉRMINO DO TEXTO
  2 espaços
  PALAVRAS - CHAVE


AULA 2

      DAS FONTES INDO-EUROPÉIAS À ERA ROMÂNTICA
(Da Narrativa Primordial à Literatura Infantil Clássica)

- a literatura ocidental constitui uma unidade reconhecida que compreende a literatura de toda Europa, Rússsia, Estados Unidos da América e da América do Sul; (R. Wellek & Warren, Teoria da Literatura, p. 62);
- as origens da Literatura Infantil, hoje conhecida como "clássica” (Novelística Popular Medieval) têm suas raízes mais remotas em certas fontes orientais (Ín­dia) ou, mais precisamente, indo-européias (Nelly Novaes Coellho);
- os livros consagrados como clássicos infantis, os contos-de-fada ou contos maravilhosos são narrativas anônimas, portanto Perrault, Grimm ou Andersen, ou as fábulas de La Fontaine não são os verdadeiros autores;
- são dos escri­tores que, desde o século XVII, interessados na literatura folclórica criada pelo povo de seus respectivos países, reuniram as estórias anônimas, que há séculos vinham sendo transmitidas, oralmente, de geração para geração, e as transcreveram por escrito;
- registradas em livro, tais coletâneas receberam os nomes de seus recriadores e continuaram a se difundir através do tempo e do espaço;
- a partir do confronto das invariantes/ variantes narrativas (conservadas pela memória privilegiada de alguns contadores-de-estórias) e, essencialmente, a partir dos docu­mentos encontrados em diferentes regiões: inscrições em pedras, em tabulinhas de argila ou de vegetal; escrituras em papiro ou perga­minho, em rolos ou em folhas presas por um dos lados ou ainda em grossos livros manuscritos (cuja preciosidade era defendida com grossas correntes e cadeados...), estudiosos levantaram hipóteses;
- Literatura Primordial: aquela que, embora não transcrita em material perene, atravessou séculos, preservada pela memória dos povos (narrativas de caráter mágico ou fantasioso);
- o impulso de contar estarias deve ter nascido no homeim no momento em que ele sentiu necessidade de comunicar aos outros certa experiência sua, que poderia ter significação para todos;
- a gênese da Literatura Popular/In­fantil ocidental está nas longínquas narrativas pri­mordiais, cujas origens remontam a fontes orientais bastante hetero­gêneas e cuja difusão, no ocidente europeu, se deu durante a Idade Média, através da transmissão oral;
- das narrativas primordiais orientais nascem as narrativas medievais arcaicas, que acabam se popularizando (na Europa e depois em suas colônias americanas, como o Brasil) e se transfor­mando em literatura folclórica (ainda hoje viva, circu­lando principalmente no Nordeste, através da literatura de cor­del) ou em literatura infantil (através dos registros feitos por escri­tores cultos, como Penault, Grimm, ctc.)

NARRATIVAS PRIMORDIAIS ORIENTAIS ---->
---->NARRATIVAS MEDIEVAIS ARCÁICAS--->
----->LITERATURA FOLCLÓRICA --->LITERATURA DE CORDEL (E) LITERATURA INFANTIL
Observação: O desenho com a árvore real o blog não está aceitando publicar, logo para melhorar o  entendimento, resume-se que as narrativas primordiais orientais originaram as narrativas arcáicas, as quais deram origem a literatura folclórica que se bifurcou em literatura de cordel ou literatura infantil.
- versões folclóri­cas de certas narrativas apresentam inúmeras variantes (dependendo das regiões onde se arraigaram); enquanto as versões infantis reproduzem-se praticamente inalteradas, nas várias edições que se sucedem (mobilidade da vida, resultante da transmissão oral, con­traposta à fixidez do texto literário, determinada pela escrita);

FONTES ORIENTAIS:
       Pantcha-tantra (cinco livros) (conjunto de textos sagrados mais importante da Antiguidade, do qual só restam fragmentos, e que reunia textos usados pelos pre­gadores budistas, por volta dos sécs. V e VI a.C.) e ao Mahabarata (longa epopéia primitiva indiana, surgida por volta do séc. VIII a.C.)
      Calila e Dimna - coletânea mais antiga das narrativas que estão nas origens da Literatura Popular européia;  deve ter sur­gido na Índia, por volta do século V antes de Cristo, e dali saído pela primeira vez, no século VI d.C., através de uma tradução persa
      Sendebar - originária da Índia, essa coletânea do fabulário oriental rivalizou com Calila e Dimna, como fonte da narrativa popular ocidental; penetrou na Península Ibérica ao mesmo tempo que Calila e Dimna, através da versão castelhana, feita diretamente do árabe, por ordem do Infante Don Fradique (irmão de Afonso X, o Sábio); devido à perda das versões anteriores em sânscrito, persa e mesmo da árabe, que lhe serviu de fonte, a versão castelhana tornou-se a forma mais pura e antiga da célebre coletânea; foi fonte da divulgação da imagem negativa da mulher, vista como astuta, mentirosa, traidora, ambiciosa, que mais tarde, na novelística ocidental, vai alternar com a imagem positiva da mulher-anjo, de inspiração cristã, dando origem à imagem dual que define a mulher, até hoje, dentro da concepção cristã ocidental;- Sendebar (ou Livro dos enganos das mulheres) apresenta a estrutura-em-cadeia característica de Calila e Dimna e que vai ser extremamente popular no Ocidente;
       Barlaam y Josafat - novela mística, cuja forma ocidental e cristã, em versão grega, foi atribuída inicialmente a S. Juan Damasceno, grande Padre da Igreja Oriental, no século VIII;- descobriu-se depois que fora escrita por um outro Juan que, um século antes, fora monge no convento de San Sabas, perto de Jerusalém; foi bastante divulgada através da tradução latina, hoje, reconhe­cida como uma versão cristã da lenda de Buda; a influência de Barlaam e Josafat aparece claramente em: El Conde Lucanor de D. Juan Manuel; Libro de Bestias de Rai­mundo Lúlio; Barlaam y Josafá de Lope de Vega e La Vida es Suenõ de Calderon de Ia Barca;
      As Mil e Uma Noites - a mais célebre compilação de contos orientais que circula no mundo ocidental; a forma atual deve ter-se completado em fins do século XV ou princípios do século XVI;- começou a se divul­gar no mundo europeu, no início do século XVIII, quando Galland traduz para o francês uma primeira coletânea {1704); Galland "expurgou-a" de algumas narra­tivas menos "exemplares" (ou mais licenciosas) e incluiu outras, de origem turca ou persa; concluiu-se que existe nesse famoso livro não só legítima matéria árabe ou síria, como, também, elemen­tos estranhos aos costumes muçulmanos, como rastros de contos fantásticos indianos, bem como de gentilismo, magia e demonologia persa;- sua origem é heterogénea e exótica;-  não foi conhecida no mundo europeu, até princípios do século XVIII e obviamente não exerceu nenhuma influência direta na novelística ocidental arcáica;- estrutura em cadeia idêntica a de Calila e Dima e Sendebar;- se difundira por todo o mundo ocidental, através das várias literatu­ras populares, e diversos de seus episódios passaram a ser divulga­dos como Literatura Infantil;
      Hitopadesa ou Instrução proveitosa- coletânea de caráter "exemplar" ou moralizador, derivada das narrativas da Pantschatantra; na Índia, essa coletânea ficou célebre como compêndio de leitura edificante;- origi­nalmente escrita em sânscrito teve inúmeras traduções em línguas modernas;

O FIO DA NARRATIVA NO TEAR DA HISTÓRIA
Leitura de textos (Xerox) / análise/comentários
Pantcha-tantra
Conta-se que o ministro Sumati, diante do rei Amaracakti,[1]considerado a arvore kalpat[2], de todos os necessitados e profundo conhecedor de todas as artes, que manifestava profunda preocupação em despertar a inteligência de seus três filhos, deveras ignorantes e desinteressados pela ciência, propôs a entrega dos príncipes a um brâmane Visnucarman, proficiente em todas as ciências, Ao ser convocado pelo rei, Visnucarman faz a promessa de tornar os jovens versados no prazo de seis meses. Então compôs cinco livros – A desunião de Amigos, A aquisição de amigos, A história dos corvos e das corujas, A Pedra do Bem Conquistado e a Ação Impensada para que os príncipes fossem instruídos. E assim em seis meses, eles alcançam o que fora previsto. Desde então, esses cinco livros, denominados Pantcha-tantra e considerados um tratado de moral, circulam pelo mundo com a proposição de educar os jovens.
Pertencem a essa ambientação do Pantcha-tantra, as narrativas: O eremita, a jarra de manteiga e mel e a Tartaruga Kambugriva[3].
Os outros textos mais contemporâneos nos permitirão depreender o diálogo que estabelecem as diferentes versões da tradição indiana ao longo do tempo, no tecido desse universo literário a que chamamos Literatura Infantil e Juvenil. 


      FÁBULA

Do sentido primeiro do substantivo - conversa, invenção - decorrem outros como historieta, narrativa breve, fictícia e mentirosa, Assim, tende a confundir-se com a parábola, com o mito, com a lenda, apólogo, conto de fadas. No entanto, é importante lembrar que cada qual guarda sua especificidade. A fábula, por exemplo, como as que apresentamos, constitui um texto narrativo com duas partes ou dois discursos bem distintos e evidentes: a estória da irrealidade (discurso figurativo) das personagens fictícias (geralmente animais) e a moral da estória (discurso temático da realidade).
                Para estabelecer o elo entre esses dois discursos colocam-se marcadores lingüísticos tais como: moral:...”a fabula mostra”.......”por isso eu digo”... Tais elementos assinalam a presença de outras vozes, outros pontos de vista que determinam o tratamento dado ao conteúdo, com a finalidade de confrontá-lo com o de outros textos, com outras maneiras de ver o mundo. Portanto, constituem formas de percepção de problemas que enfrentamos em situações diversas, contribuem para a compreensão de contradições tão comuns em relacionamentos e fornecem pistas para solução de crises.




[1] Amaraçati – que tem poder imortal
[2] arvore kalpat- uma das árvores do paraíso de Indra
[3] a versão para o português encontra-se no livro.Pnchatantra de Maria Valiria Vargas.
AULAS

LITERATURA INFANTIL E JUVENIL LINGUAGEM DO IMAGINÁRIO I
Profa. Dra Maria Zilda da Cunha
I - Introdução

A literatura infantil e juvenil, apesar de ter sido entendida como um gênero menor, por muitos e durante algum tempo, é hoje respeitada como uma chave críptica para diversas sondagens, posto que, pelo avesso desse tecido literário pode-se perceber a trama de formações sociais, ideológicas, de diferentes culturas humanas, crenças, conceitos, idéias, concepções de mundo; inclusive permite estabelecer relações absolutamente interessantes e fundamentais sobre as representações que se fazem e fizeram da criança, e do próprio humano, no perfazer da história. Daí o desenvolvimento de estudos interdisciplinares sobre o assunto (de abordagem sociológica, psicanalítica, antropológica, pedagógica, entre outras).  No bojo de transformações profundas, a literatura infantil e juvenil hoje se impõe como importante objeto de estudo; no âmbito dos estudos universitários, ela vem ocupando espaços cada vez maiores e configura-se como linguagem especial destinada aos jovens e passa a ser percebida como fator básico da própria dinâmica do conhecimento.
Este nosso curso possui uma abordagem mais histórica; é uma atividade de escavação na busca de origens – não uma matriz – o ponto originário e o final são imaginários e inatingíveis. Nessa linha de raciocínio, o movimento histórico é essencial (semiose – como um signo dá vida a outro) assim como é o reconhecimento do momento histórico, de cada contexto cultural, social e histórico. 
É necessário conferir referências, em especial a respeito de conceito de arte, de linguagem, de literatura como formas específicas de produção humana (tal como preconizam algumas teorias atuais) - importante para que possamos olhar para outras épocas e possamos perceber as diferenças e também a tessitura de fios de sentidos humanos que nos constituem e que são possíveis de serem vislumbrados pelas vias da ficção.



·         ARTE E LITERATURA
Arte – atividade humana muito sofisticada – que envolve sensibilidade, construção, elaboração, raciocínio e lógica - a ponto de ser a primeira a descobrir e revelar que a linguagem é mentirosa – fruto do embate do homem com o real. 
Literatura – “em português é o conjunto de produções feitas com base na criação de um estilo que é finalidade de si mesmo e não instrumento de demonstração ou exposição. Mais restritamente, é o conjunto das produções feitas com base na criação de obras que manifestam o intuito de criar um objeto expressivo, fictício na maior parte... Toda a literatura (romance, teatro em prosa) saiu da nebulosa criadora da poesia.” (Antonio Cândido, 1996).

·         ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O INFANTIL DA LITERATURA / E SOBRE A FORMAÇÃO DA LITERATURA INFANTIL

A CRIANÇA[1]
A maneira de perceber a criança influi sobre suas condições de vida, sobre seu estatuto e sobre os comportamentos dos adultos em relação a ela. Em uma dada sociedade, as idéias e as imagens relativas à criança, por mais variadas que sejam, organizam-se em representações coletivas, que formam um sistema em níveis múltiplos. Uma linguagem “sobre” a criança é criada, assim como uma linguagem “para” a criança, já que imagens ideais e modelos lhe são propostos.”                                                                                                                                                                      M.J.C. de Lauwe

Puxando o fio da história

             Natureza humana, humanidade, homem racional, eram palavras presentes nos discursos dos mais antigos filósofos, que se constituíram em grandes pilares da formação do pensamento ocidental. Essas palavras, no entanto, não se referiam à metade do gênero humano, vinculavam-se aos homens adultos, ou seja, não abarcavam mulheres e crianças (Saporiti,1985).
            A palavra criança é extremamente usada nos mais antigos documentos. No entanto, vamos, através das pesquisas de Ariés (1981), perceber que até aproximadamente o século XVIII, ela não possui o mesmo significado que a ela atribuímos.
            A criança inscrita na sociedade é bastante recente, e segundo o autor acima citado, isto ocorre nos primórdios da Idade Moderna.
            Em a História Social da Criança e da Família, Ariés (1981) explica que, apesar de as “paideias antigas” deixarem vestígios sobre rituais de passagem de em algumas fases de vida, a noção das idades era extremamente diferente das que podemos imaginar. Tomando como referência a sociedade medieval, esse autor nos mostra, através de uma profícua investigação, que a idéia da particularidade infantil, que distingue a criança do adulto, não existia. A indeterminação a respeito desse período de vida abarcava desde o termo designativo - enfant, até a participação indiscriminada em toda e qualquer prática social.
            Ao referir-se à gestação de um “sentimento novo” a respeito da criança, diz que a arte, a iconografia e a religião, desde o séc. IV, já procuravam exprimir a “personalidade que se admitia existir nas crianças e o sentido poético e familiar que se atribuía à sua particularidade”. Em sua evolução, essa expressão passa a se configurar como um sentimento de infância que se desenvolve no meio familiar com relação às crianças de tenra idade; que “por sua ingenuidade, gentileza e graça se tornam uma “fonte de distração e relaxamento para o adulto, um sentimento que poderíamos chamar de paparicação”. Esse sentimento, ainda segundo o autor, provoca severas críticas no final do século XVI e sobretudo no séc. XVII: não é admissível a idéia de se amar as crianças “como passatempo, como se fossem macacos”, dizia Montaigne.
            Foi entre os escolásticos, moralistas e educadores do séc. XVII que se inicia um “autêntico” sentimento de infância. Esses se recusavam a considerar as crianças como “brinquedos encantadores”, viam-nas como “frágeis criaturas de Deus” que era preciso, ao mesmo tempo, preservar e disciplinar. A preocupação era fazer das crianças pessoas honradas e probas e homens  racionais (Ariés, 1981).
            Esse “autêntico sentimento de infância”, ou essa noção de criança, como se pode inferir, está baseada nas seguintes proposições:
a) das criaturas de Deus, o homem (em seu estágio adulto) é o mais perfeito;
b) as crianças são frágeis criaturas de Deus, ainda imperfeitas;
c) as crianças devem ser preparadas (controladas) pelo adulto para se tornarem homens racionais.
            Essa espécie de conhecimento sobre a criança, que surgiu entre os escolásticos, vai ligar-se a um outro acontecimento importante do séc. XVIII - a emergência de uma nova noção de família, centrada não mais num núcleo unicelular.
            A família começou a se organizar em torno da criança e passou a lhe dar uma importância tal que a criança saiu de seu anonimato. Saindo do seu anonimato, a infância ou indivíduo que a atravessa passa a ser objeto de preocupação de teóricos desse século e dos séculos seguintes, que desenvolveram suas doutrinas baseadas no pressuposto que subjaz à noção de criança: um ser imperfeito, perante o padrão adulto - homem racional.
            Não pretendemos, aqui, discorrer sobre as várias questões que isto envolve, portanto, a guisa de exemplo, faremos apenas referência a dois teóricos: ao empirista britânico John Locke (1632 - 1704) que, com sua metáfora da tábula rasa, influenciou grande parte do desenvolvimento de ciências que posteriormente surgiram, entre essas, a pedagogia e a psicologia infantil e ao pensador francês Jean Jaques Rousseau (1712-1778) que “é o responsável por trazer idéias muito antigas para a modernidade, disfarçando-as em roupagens novas” (Saporiti, 1985).
            Esse pensador, usando o argumento da lei natural, continua uma longa tradição de pensamento e acaba por desenvolver uma teoria que vai confirmar a inferioridade da criança. No Émile (1977), Rousseau defendeu a tese de que a tarefa do adulto - pais e educadores - é criar condições pelas quais o curso do desenvolvimento ordenado pela natureza possa desenrolar-se espontaneamente, livre de intervenção dos adultos. O que Rousseau acreditava é que, entregue à natureza, a criança teria o desenvolvimento processando-se numa sucessão de fases. Em cada fase de desenvolvimento, o indivíduo está completo e integrado. Desse modo, a evolução da criança se daria por etapas isoladas e na direção de atingir o padrão adulto. Por outro lado, conforme aponta Saporiti (1985), “o elemento que transformou Rousseau no filósofo da era moderna foi justamente a maneira como ele expressou sua rejeição da exploração, da desigualdade entre os homens”. Aqui, continua a autora, citando Okim, ele faz um uso oblíquo e ambíguo da linguagem. Quando se observa melhor, pode-se perceber que a desigualdade a que Rousseau estaria se referindo e lutando contra, era tão somente aquela que pode existir entre os membros masculinos de uma comunidade e não diz respeito à espécie humana como um todo. De tudo isso é possível depreender a visão da criança, como um animalzinho silvestre, alguém muito próximo à natureza que não precisa e nem deve sofrer os impactos dos acontecimentos.
            Rousseau, com suas idéias, também se tornando um interlocutor privilegiado no desenvolvimento da psicologia infantil e da pedagogia, embora com menos força no campo do ensino, iluminou a visão romântica da criança.
            Na verdade, são esses dois pilares, aparentemente antagônicos, porém confluentes em sua pressuposição matriz sobre a criança, que alicerçam a idéia que temos sobre sua inferioridade em relação ao adulto.
            Voltando a Ariés (1981), ele nos conta que à medida que a criança deixou de ser misturada ao adulto, a escola substituiu a aprendizagem como meio de educação. Diz ele:

            “a criança foi separada dos adultos e mantida à distância numa espécie de quarentena, antes, de ser solta no mundo. Essa quarentena foi a escola, o colégio, começou então um longo processo de enclausuramento das crianças (como dos loucos, dos pobres e das prostitutas) que se estenderia até nossos dias e ao qual se dá o nome de escolarização.”

            Essa separação - e essa chamada à razão - das crianças deve ser interpretada como uma das faces do grande movimento de moralização dos homens, promovido pelos reformadores católicos e protestantes ligados à Igreja, às leis do Estado (Ariés, 1981). Essa chamada à razão culmina com a visão cartesiana, que se incorporou às tradições iluministas, segundo a qual “a primeira maneira de evitar o erro seria tornar a infância um estado de patologia; entendendo patologia como as ‘manchas’ que se expandem antes do uso da razão e que, portanto, devem ser eliminadas pelos mestres, pelos livros e pelos costumes” (Matos, 1990).
            E assim teríamos parte de um arcabouço constituído para dar conta da representação da criança e conseqüentemente das práticas destinadas a ela (incluindo a produção/adaptação de textos para a infância)[i]

Contexto do Sec. XVIII

       A criança – inscrita na sociedade; peça fundamental para a formação da família burguesa/ - postulados o seu confinamento, fragilidade e inferioridade perante o adulto.
       Escola – papel fundamental, literatura formadora – do caráter ético e moral, literatura = conjunto de textos apropriados para essa formação.
       Revolução industrial – desenvolvimento da imprensa – livro a primeira mídia.
       Pode-se dizer que os primeiros livros para crianças datam dessa época/ um conjunto de textos convergem para a formação do cânone da literatura infantil como gênero específico

       NUMA SÍNTESE GROSSEIRA

       Idade Média – a criança - adulto em miniatura / participa de eventos misturada aos adultos.
       Idade Moderna – a criança ganha status, inscreve-se na sociedade /são postulados o seu confinamento, fragilidade e inferioridade perante o adulto/Inicia-se a escolarização espécie de  quarentena – separada dos adultos, (eventos, conversas, saberes, os assuntos selecionados) Aries . Desenvolvimento de pesquisas, teorias áreas, produtos culturais e industrializados
       A criança no mundo contemporâneo. (para pensar)


·         ALGUMAS CONSTATAÇÕES

       Há um jogo de representações de que a sociedade se utiliza para se auto – regulamentar - como sistema simbólico, se organiza de acordo com as formações sociais e historicamente, vai se consolidando e funcionando como um sistema controlador, (os diferentes sistemas sígnicos agem de forma cooperativa). 
       Pode-se detectar as relações existentes entre as diretrizes educacionais de cada época e a natureza da literatura, destinada às crianças e aos jovens.
       As obras estudadas em seu valor como objeto de entretenimento (prazer ou emoção) para o leitor; em seu alcance pedagógico como possível elemento formador de uma consciência-de-mundo; como consolidação de valores já conquistados pela sociedade, ou ainda como obstáculo à evolução, pelo reforço a formas ou idéias já superadas;
       Deve-se lembrar sob o ponto de vista filosófico e psicocognitivo:
       As idéias de Morin – sintese de mihões de anos, Walter Benjamim – Reflexões sobre a criança, o brinquedo e o livro -  para quem a criança compreende o acordo secreto entre as coisas, recolhe o lixo da história, dá novas ordenações, a criança para esse filósofo, “exige clareza mas não infantilidades”. Cumpre lembrar os estudos vinculados às ciências cognitivas, que demonstram como a criança pensa e apreende o mundo.